Pensamentos

Abril 16 2012

 

 

 

                                         

         Depois de  muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos (relacionamentos) são de dois tipos:  há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol.   Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal.  Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

 

O tênis é um jogo feroz.   O seu objetivo é derrotar o adversário.  E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola.  Joga-se tênis para fazer o outro errar.   O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

 

         O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que , para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.  Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado.  Aqui , ou os dois ganham ou ninguém ganha.   E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. 

 

   E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado.    Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém  marca pontos.... A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras.   Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

        

         Mas há casais que jogam com os sonho como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada.   Tênis é assim:  recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão...  O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento.  Aqui, quem ganha sempre perde.

 

                   Já no frescobol é diferente:  o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que,  se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres.

 

         Bola vai, bola vem – cresce o amor....  Ninguém ganha para que os dois ganhem.  E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

 

 

Por Rubem Alves

publicado por pensamentoslucena às 11:29

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